Depois do temporal, fica a pergunta: quem vai pagar a conta?
02/10/2026 Coluna Cláudio Albano
Três dias depois do temporal que atingiu São Miguel do Iguaçu, muitas famílias ainda enfrentam falta de energia, água, prejuízos materiais e incertezas.

A noite de terça-feira, 29 de setembro de 2026, se aproximava e o céu de São Miguel do Iguaçu já dava sinais de que algo diferente estava por vir. Em pouco tempo, o cenário mudou. Um forte temporal atingiu o município, provocando destelhamentos, alagamentos, quedas de árvores, interrupções no fornecimento de energia elétrica e uma série de danos em diferentes pontos da cidade.

Naquela mesma noite, enquanto muitas famílias tentavam proteger o que ainda era possível salvar, equipes da Defesa Civil e de outros órgãos iniciaram a mobilização para atender as ocorrências. Era apenas o começo de uma longa jornada que, dias depois, ainda não terminou.

Na quarta-feira, o Ginásio de Esportes Walter Marcon já estava mobilizado para receber famílias atingidas e concentrar doações. Voluntários começaram a chegar, demonstrando que, diante da emergência, a solidariedade da comunidade novamente falou mais alto.

Ao longo do dia, equipes da Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, Guarda Municipal, Polícia Militar e outros órgãos permaneceram nas ruas, atendendo ocorrências e prestando auxílio à população. Estima-se que entre 60 e 70 famílias tenham perdido parte de seus pertences ou enfrentado danos significativos em suas residências.

Mas, passados três dias, o problema ainda está longe de terminar.

Nesta sexta-feira, muitas famílias continuam convivendo com casas sem energia elétrica, falta de água e uma pergunta que cresce junto com a preocupação: quando a vida voltará ao normal?

A Copel trabalha para restabelecer o fornecimento de energia, mas a demora na recomposição da rede tem provocado impaciência e preocupação entre moradores que seguem esperando uma solução. É preciso reconhecer que um temporal de grandes proporções pode causar danos complexos à infraestrutura e que a reconstrução da rede elétrica demanda segurança e procedimentos técnicos. Ao mesmo tempo, para quem está dentro de casa sem energia, essa explicação não resolve os problemas do cotidiano.

Geladeiras desligadas significam alimentos perdidos. Comércio fechado ou funcionando parcialmente representa faturamento que deixa de existir. Trabalhadores podem ficar impossibilitados de exercer suas atividades. Famílias precisam improvisar para tomar banho, preparar alimentos e conservar o pouco que não foi perdido durante o temporal.

E é justamente nesse ponto que surge a pergunta que não pode ser ignorada: quem vai pagar essa conta?

Não se trata apenas da conta de energia ou do prejuízo provocado pela perda de alimentos. A conta é muito maior. É a conta do comerciante que não conseguiu abrir as portas. Do trabalhador que perdeu um dia ou mais de serviço. Da família que teve o telhado destruído. Da pessoa que perdeu móveis, eletrodomésticos e documentos. É também a conta emocional de quem viu, em poucas horas, parte do patrimônio construído durante anos ser destruído pela força da natureza.

A resposta não pode ser simplesmente esperar que cada cidadão resolva sozinho o próprio prejuízo.

Momentos como este mostram a importância da Defesa Civil, dos Bombeiros, das forças de segurança, do poder público, das empresas responsáveis pelos serviços essenciais e, principalmente, da comunidade. A mobilização de voluntários e a arrecadação de doações demonstram que São Miguel do Iguaçu possui uma população disposta a ajudar quem mais precisa.

Mas solidariedade não substitui responsabilidade.

É necessário que os órgãos públicos mantenham o acompanhamento das famílias atingidas, orientem sobre eventuais programas de auxílio e recuperação e garantam que as necessidades mais urgentes sejam identificadas. Da mesma forma, as empresas responsáveis pelos serviços essenciais precisam manter a população informada sobre os trabalhos de recuperação e, sempre que possível, apresentar previsões realistas para o restabelecimento dos serviços.

O temporal passou, mas suas consequências permanecem.

Agora começa uma segunda fase, talvez tão importante quanto o atendimento emergencial: a reconstrução. E reconstruir significa muito mais do que retirar árvores das ruas, consertar postes ou distribuir telhas. Significa ajudar as pessoas a retomarem suas vidas.

São Miguel do Iguaçu já demonstrou que sabe se unir diante da dificuldade. O desafio agora é transformar essa união em uma rede organizada de recuperação, para que nenhuma família atingida fique esquecida depois que as notícias sobre o temporal deixarem as manchetes.

Porque, no fim, a pergunta permanece: quem vai pagar a conta?

A resposta precisa ser construída com responsabilidade, transparência e, sobretudo, respeito por quem perdeu muito em apenas algumas horas.

Cláudio Albano / Redação Guia São Miguel

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